Duas Vezes Favela

O Rio de Janeiro é repleto de morros. A classe média que mora nos chiques bairros da zona sul convive lado a lado com as favelas. Apesar da proximidade, a imagem que boa parte da classe média tem dos morros é construída a partir de notícias vindas de terceiros e não pelo contato direto. Vivo no Rio desde que nasci, há 26 anos, e, até o mês passado, tudo o que eu sabia sobre as favelas aprendi lendo jornais, vendo TV, assistindo a filmes e escutando relatos de poucos amigos.

A primeira vez que subi o morro foi em julho passado. Era para conhecer a casa da Antônia, empregada doméstica que trabalha para a minha família há 24 anos. Ela mora na favela Dona Marta, em Botafogo. Fui acompanhado de minha mãe, que tampouco conhecia a vida no morro, e de minha namorada, autora da idéia. Minha primeira surpresa foi notar a felicidade da Tonha diante do nosso auto-convite. Ela se empolgou e comentou com as amigas do prédio. Era como se sentisse de alguma forma prestigiada.

A entrada para o morro é através de uma ladeira de paralelepêpedos. Ao longo dela, há pequenos prédios antigos de três ou quatro andares. Logo, eles vão sendo substituídos por casas e, quando a ladeira termina, surgem os barracos. Para chegar à casa da Tonha é preciso subir cerca de 50 degraus em uma estreita escada por entre os barracos. No trajeto, há uma boca de fumo. Senti-me observado. Um traficante portava sem a menor cerimônia uma arma preta, grande e enferrujada. Seria um fuzil? Não sei, não entendo de armas. Outros, sentados junto a uma mesinha, embrulhavam trouxinhas de maconha. A cena era muito parecida com a imagem que tinha na cabeça. Mas ver aqueles homens armados na minha frente, ao vivo, é muito diferente de ver na tela da TV. Senti medo.

A casa da Tonha fica na parte baixa do morro. Tem sala, dois quartos, cozinha, banheiro e quintal: parece melhor que a média da favela. Nas paredes e estantes, notei objetos de decoração que já enfeitaram nossa casa no passado. Minha bicicleta antiga estava no quintal. O computador velho, um XT, um dos primeiros que tivemos, estava lá, funcionando não sei como. Ver tudo aquilo que para nós não tinha mais nenhum valor ser reaproveitado e utilizado com amor me deixou feliz. Aqueles objetos ganharam uma segunda vida. "Aqui seu quadro!", e Tonha apontou para um quadro que eu fizera há seis ou sete anos, quando me iniciava na pintura. Ele é o único e solitário quadro a decorar a parede em cima de sua cama. Tomamos um café e conversamos. "Essa aqui é a Ana da Beba, ela mora em cima da gente". Visitamos a laje da Beba e saboreamos uma bela vista.

Duas semanas depois eu voltei ao morro. A desculpa foi levar para o filho da Tonha meu "mais novo computador velho", para substituir aquele XT. No fundo, eu queria mesmo era ver aquilo tudo mais uma vez. Queria passar pelas escadas apertadas, notar as armas dos traficantes enfiadas dentro dos calções, reparar nos rostos daquele monte de gente subindo e descendo por entre os barracos, como formiguinhas. Tive uma atração por esse mundo paralelo, que sempre existiu ao meu lado, mas que eu via como se estivesse a centenas de quilômetros de distância. Tive vontade de conversar com os traficantes e com aquelas pessoas na birosca, uma vontade de entender aquela realidade. Gostei da experiência. Mas, ao mesmo tempo, senti vergonha por ter demorado tanto tempo para ter tido coragem de conhecê-la ao vivo.

O Rio não é o Rio sem as favelas. A cultura carioca, em boa dose, é influenciada pelas favelas. O samba nasceu nos morros. O funk também. Uma infinidade de gírias que usamos no dia a dia vem de lá. Os cariocas precisam conhecer melhor as favelas para entender a si mesmos.

Fernando Paiva



Adicione seu banner aqui, em troca pedimos que coloque nosso banner no seu site.
Contato